Roendo as Unhas

Opiniões, interpretações e crônicas do jornalista gaúcho Luís Eduardo Amaral (Duda Amaral) sobre os principais assuntos da atualidade.

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Opiniões, interpretações e crônicas do jornalista gaúcho Luís Eduardo Amaral (Duda Amaral) sobre os principais assuntos da atualidade.
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Terra Blog

Arquivo de: Setembro 2007

23.09.07

Que me desculpem os tradicionalistas, mas...

categorias: Crônicas

          ”Afinal, os farrapos tentaram separar nossa província do resto do Brasil e até italiano veio ver. Será que hoje não estamos a altura de nossos ancestrais?"

          Lá se foi a chuva, o barulho do trote de centenas e mais centenas de cavalos, muitos deles exibindo marcas do inverno severo que abateu os campos da fronteira, lá se foi aquele movimento de entra e sai nos galpões que passam o ano todo entre teias de aranha e poeira, a gurizada que tenta mostrar ser mais gaúcho que os outros apenas por erguer mais alto a guampa de canha e o relho. Lá se foi a peonada de volta para as estâncias cravar os dedos na lida após algumas noites de baile e uma manhã de desfile embaixo d’água. E lá se foi o símbolo maior do nosso orgulho de festejar o 20 de Setembro, demonstrar intimidade com os costumes desta terra, exibir nosso apego pela prenda, chimarrão, pilcha e cavalo. Enfim, encerrou a semana mais sentimental deste Rio Grande, e o que restou além dos discursos, discussões e o cheiro ruim nas ruas?

          Neste ano, ao contrário de boa parte da minha vida, fiquei apenas como espectador do mais importante evento de Sant’Ana. Desfilei durante dez anos no Movimento Nativo Upamaroty, trabalhei outros seis como repórter e atuei uma vez na Comissão Organizadora. Nos demais, buscava acomodar-me num bom lugar, seja aqui ou em Rivera, para assistir entidade por entidade. Neste ano, fiquei em casa e acompanhei o desfile pelo Canal Diez. Pareceu um balde de água fria no orgulho que tenho pela festa. Consegui ter uma noção exata de como a passagem dos cavalos pela Andradas e Sarandi é feia, por um ponto de vista estético, é claro. Os tradicionalistas irão argumentar que o desfile não busca beleza, mas sim uma homenagem fidedigna aos gaúchos que lutaram bravamente na Revolução dos Farrapos. Tudo bem, mas que está feio, ah, isso tá!

          Livramento merece um espetáculo para ser comentado nos quatro cantos do planeta. Uma Semana Farroupilha onde além dos tradicionais cavaleiros pilchados defendendo suas entidades, haja carros alegóricos representando momentos da história do Rio Grande e seus personagens. Arquibancadas, camarotes e uma passarela onde nem público e nem cachorro vira-lata atravesse no meio do desfile como se nada estivesse acontecendo. Imagino a nossa cidade virando um gigantesco galpão crioulo, onde casas e lojas sejam decoradas, os postes com bandeiras do estado, moradores pilchados, carne assada e mate amargo distribuído nas praças, piquetes abertos o ano todo funcionando como restaurantes e pequenos museus e, para abrir a festa na noite do dia 14, um grande espetáculo de música, teatro e dança gaúcha com iluminação de primeiro mundo e atores famosos contando a nossa revolução, como a Encenação de Cristo dos pernambucanos. Durante esses sete dias, teríamos várias charretes espalhadas por Livramento para transportar os turistas como ocorre em evento semelhante na Feira de Sevilla, Espanha, no mês de abril. E a Brigada Militar poderia atuar com os seus cavalos e trajes a exemplo de como fazia antigamente. E mais os shows de artistas gaúchos, feira do livro e mostra de cinema regional.

          Desculpem-me os tradicionalistas, mas se continuar como estamos, essa festa estará correndo sério risco de ser atropelada por Porto Alegre, Bagé e Alegrete. Já não possuímos o maior desfile do mundo, se não tivermos a melhor Semana Farroupilha, nada nos restará. E seguir à risca como defendem alguns tradicionalistas e historiadores, estaremos gastando muito dinheiro para promover uma festa para nós mesmos e apresentando nossos costumes para quem já está torto de saber. Precisamos pensar grande e criarmos um evento para todo o país e o mundo ter vontade de viajar para conhecê-lo. Afinal, os farrapos tentaram separar nossa província do resto do Brasil e até italiano veio ver. Será que hoje não estamos a altura de nossos ancestrais?

  • criado por  Duda Amaral criado por Duda Amaral
  • Postado em 13:25:46

13.09.07

VERGONHA

          "Por tudo isso, resta-me apenas duas grandes dúvidas: a senhora consegue se olhar no espelho? Sua família consegue ter orgulho do que a senhora faz?"

          Após a vergonha promovida pelos senadores brasileiros na última quarta-feira, quando absolveram o criminoso alagoano Renan Calheiros, lembrei da conversa que tive com meu xará Duda Pinto, fotógrafo aqui da cidade, na tarde de terça-feira durante o sepultamento do pai de um amigo nosso em comum. Ele falou em tirar satisfação da senadora catarinense Ideli Salvatti por fazer lobby a favor do bandido. Gostei e segui a sugestão. Abaixo está a íntegra da carta que enviei para o e-mail da dita senadora com anexo para alguns dos principais colunistas políticos de Brasília, São Paulo, Florianópolis e Porto Alegre. É evidente que ela não deverá ter coragem para responder ou estará ocupada em alguma festa regada a capeta na beira da praia... lá em Maceió.

 

          Prezada, Senadora:

          A senhora e sua turma de compadres conseguiram fazer aquilo que nem mesmo o pioneiro Senado Romano teve a audácia, uma sessão secreta para salvar um dos maiores criminosos que já pisaram em nosso Congresso. Nem mesmo o Presidente da República Fernando Collor (os alagoanos precisam votar melhor, e os catarinenses também) teve esse privilégio no seu impeachment.

          Tudo para proteger o próprio Renan? Não, é evidente que não. Essa manobra só pode ter sido premeditada para salvar a carreira de vários senadores que, eu acredito, estejam com seus podres confiscados no cofre do gabinete do adúltero amigo de empreiteiro. Amanhã, com certeza, esse Renan Calheiros renunciará a presidência da casa para manter sua cadeira e seus direitos políticos. Vocês, senadores representantes dos próprios bolsos, irão fazer o possível para todos esquecerem as acusações e continuarão com seus trambiques políticos. No máximo, discutem se ele deveria perder a presidência do Senado, quando na verdade ele deveria era ser preso, ficar alguns anos atrás das grades. Mas nosso país é um reflexo de nossos senadores...

          Parabéns, nobre senadora, a senhora tem motivos suficientes para festejar a absolvição do seu amigo. Nunca imaginei uma representante do sul do país, tampouco do tão aclamado PT da ética, encampar ilegalidades de um político cria do coronelismo nordestino. Parabéns, Senadora, a senhora defendeu seu amigo do poder da Justiça e da vontade do povo. Mas garanto-lhe que farei tudo ao meu alcance para convencer familiares, colegas e amigos catarinenses a nunca mais votarem na senhora. O voto deles tem caráter, e a senhora não possui altura para representá-los.

          Por tudo isso, resta-me apenas duas grandes dúvidas: a senhora consegue se olhar no espelho? Sua família consegue ter orgulho do que a senhora faz?

          Parabéns, Ideli Salvatti, protetora do Renan.

          Luís Eduardo Amaral, jornalista e eleitor brasileiro.

  • criado por  Duda Amaral criado por Duda Amaral
  • Postado em 21:05:52

05.09.07

Uma vila esquecida no Pampa

categorias: Crônicas

          "O episódio ganha uma tristeza imensurável quando o caixote possui o tamanho de um anjinho, de uma criança recém nascida, o que é bem habitual naquele lugarejo"

 

          Não tem coração gelado que agüente, não tem Bolsa Família que lá chegue, não tem partido ou ideologia política que se preste, não tem autoridade que lá mande, não tem olhos que segurem as lágrimas ao conhecer a outra ponta do Corredor da Reculuta, um lugarzinho no interior do município de Rosário do Sul.

          É provável que muitos dos santanenses nem conheçam a zona rural de seu próprio município, o que dirá a pequena vila formada de casinhas de tábua reaproveitada e telhado de capim na beira do Rio Santa Maria, região de Campo Seco, quase divisa de Rosário do Sul com Dom Pedrito. Na principal estrada rural que leva da cidade das areias brancas até a vizinha do ponche verde da paz, alguns poucos quilômetros depois da maravilhosa Estância do Umbu, existe um corredor tão estreito quanto esburacado, tão abandonado quanto triste. É o Corredor da Reculuta. No final dessa esquecida estrada há uma dúzia de humildes e também esquecidos casebres, muitos deles já acostumados a sumirem com a suba das águas do Santa Maria, águas que caem em Livramento e correm por Dom Pedrito. A mesma água utilizada pelas famílias que lá moram para tomar banho, cozinhar a escassa comida e matarem a sede das crianças e dos animais.

          Esse pequeno lugarejo é conhecido como a Vila da Reculuta e lá todos carregam o sobrenome Petin. Em cada casa mora no mínimo um jovem casal e seus seis ou sete filhos, uma escadinha que demonstra uma atividade reprodutiva quase anual dos adultos que por lá sobrevivem, sem televisão e nenhum outro método contraceptivo. O sobrenome é o mesmo porque todos têm o mesmo sangue, são primos casados com primas, tios amancebados com sobrinhas e sobrinhos amigados com tias. Em dois ou três dos casebres residem os avós de uma extensa turma de crianças que passam manhãs e tardes correndo, brincando, chutando bola e fingindo sobre bolsas cheias de roupa estarem cavalgando robustos cavalos crioulos. Lá elas estão em total liberdade, de um lado para o outro, sem a menor preocupação com a violência urbana, com o ensino escolar e com os riscos da promiscuidade e da imundícia. Mas todos são exemplares anfitriões para o caso de aparecer, por engano, perdido ou raridade, uma viva alma nas margens do Santa Maria, na vila esquecida.

          Eles são esquecidos pela sociedade, pelo poder de Justiça e pelo governo e seu assistencialismo. Nem mesmo os políticos em época de eleição aparecem para conhecer os Petin. Naquela pacata vila, o analfabetismo é unânime, as crianças nascem de parteiras e nenhuma até hoje foi registrada. A pior cena acontece quando alguém morre. A dor, o luto e o sofrimento são apenas deles, não dividem com mais ninguém na face da terra, terra que eles desconhecem sua cor, seu formato, sua extensão e seus povos. Os próprios moradores (familiares) pregam um improvisado caixão de madeira para depositarem o corpo do morto e, então, sepultarem no pequeno cemitério do lugarejo, poucos quilômetros de suas casas. O episódio ganha uma tristeza imensurável quando o caixote possui o tamanho de um anjinho, de uma criança recém nascida, o que é bem habitual naquele lugarejo. É um sentimento que faz qualquer “estrangeiro” chorar convicções, pecuinhas, vícios, pecados e todas as nossas ganâncias e invejas cotidianas. É um sentimento de chorar por conhecer um lugar tão perto de nossas casas onde as pessoas chegam e vão desse mundo sem ninguém imaginar que um dia elas existiram.

  • criado por  Duda Amaral criado por Duda Amaral
  • Postado em 21:15:06