Roendo as Unhas

Opiniões, interpretações e crônicas do jornalista gaúcho Luís Eduardo Amaral (Duda Amaral) sobre os principais assuntos da atualidade.

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Opiniões, interpretações e crônicas do jornalista gaúcho Luís Eduardo Amaral (Duda Amaral) sobre os principais assuntos da atualidade.
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Terra Blog

Arquivo de: Janeiro 2008

30.01.08

Muito Longe de Casa

 

          Este livro da Ediouro de 224 páginas chegou as minhas mãos na última semana de 2007, presente de Natal de minha sogra Rachel Damboriarena, uma das maiores leitoras de livro que conheço. No entanto, confesso não ter levado muita fé na obra do jovem africano de Serra Leoa Ishmael Beah, 27 anos. Talvez birra com o título, quem sabe pelo vício de seguirmos indicações da mídia - e este livro não estava em nenhuma seção literária da Revista Veja ou de qualquer jornal que leio - ou até mesmo preconceito por ser um escritor mais jovem do que eu. Enfim, não tive empolgação, mas não deixei de analisar as orelhas e os comentários de revistas internacionais impressos em sua contracapa.

          Foi então que chamou a minha atenção uma pequena crítica da Newsweek: “É necessário ler apenas 20 páginas para afirmar que, fosse ficção, o jovem autor deveria ganhar um prêmio Nobel”. Opa! Ruim não deve ser ou o cara da Newsweek é parente do escritor. Porém, justamente na mesma época, eu estava chegando à metade de Neve, do turco Orhan Pamuk, o efetivo vencedor do Nobel em 2006. Sabe de uma coisa, pensei, vou ler as primeiras vinte páginas que o crítico elogiou tanto. Resumo da história: a empolgação chegou, deixei Neve de lado na estante e detonei em quatro dias o livro deste talentoso escritor de Serra Leoa. Em minha modesta opinião, nenhum deles mereceria o prêmio mais importante da literatura mundial, mas se a obra do turco ganhou, a de Beah merecia no mínimo dois prêmios Nobel.

          Essa onda de histórias passadas no Oriente Médio tomou conta do mercado editorial nesses últimos anos, e aí já está um ponto positivo da obra de Beah. O cenário é outro, é em Serra Leoa, país africano tomado pela guerra civil durante os anos 1990 e com conflitos ultrapassando inclusive essa década. A grande virtude de Muito Longe de Casa é, sem dúvida, a dramática história de seu personagem central, o próprio Ishmael Beah, durante sua trágica adolescência em meio ao caos que virou a sua terra, onde as melhores característica do ser humano eram mandadas para o inferno por rajadas de metralhadoras e sob gargalhadas de centenas de crianças drogadas.

          O impactante desta obra é que a história da vida de Beah foi contada de uma forma tanto assustadora devido os fatos por ele vivido quanto emocionante por ser o próprio jovem africano a escrever sua história. O autor foi um alegre menino estudioso que se separou da família durante um ataque de revolucionários a sua aldeia e, daí em diante, inicia-se uma corrida de gato e rato com Beah tentando fugir dos horrores da guerra e da morte. Durante muito tempo ele consegue fugir dos rebeldes, mas acaba sendo recrutado mais tarde para ingressar com milhares de outras crianças nas fileiras do exército na guerra contra os revolucionários. Então, sua vida muda para uma loucura de noites em claro entorpecido por drogas, bebidas e pela vontade de trucidar o inimigo.

          Contrariando a lógica da guerra, Beah consegue reabilitar-se com a ajuda de voluntários da Unicef, viaja para os Estados Unidos, forma-se em Ciências Políticas e escreve esta obra, contando as barbaridades da guerra em seu país. Se o seu livro não é de empolgar, tudo bem, mas a vida deste menino soldado e jovem escritor é de emocionar o coração mais gelado do ocidente. Inclusive, ele esteve ano passado no Brasil durante a Festa Literária de Parati (Flip). Se não estou enganado, a sua experiência serviu de base para o roteiro do filme Diamantes de Sangue, de Edward Zwick, com os atores Leonardo Di Caprio e Jennifer Connelly, que mostra as mesmas atrocidades descritas na obra de Beah, tudo por força de gananciosos líderes políticos que buscavam enriquecer e manterem o poder às custas do tráfico de diamantes de Serra Leoa. Iniciei esta leitura por acaso, mas não por acaso que passei a recomendar Muito Longe de Casa – Memórias de um Menino Soldado como uma das histórias que mais mexeu comigo... eu aqui, do outro lado do Atlântico, voltando para as páginas de Neve.

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  • Postado em 00:09:17

29.01.08

As artimanhas da Língua Portuguesa

          Nesta terça-feira de noite, enquanto metade do país deve estar sentado na poltrona divertindo-se entre uma novelinha da Globo ou um paredão do Big Brother Brasil, programas maravilhosos para espalhar ainda mais a forma errada dos brasileiros falarem sua própria língua, resolvi postar uma historinha que recebo por e-mail sobre as trapaças da nossa Língua Portuguesa. Não é nova, há um ano (e não há um ano atrás) eu já havia lido e gostado muito do diálogo entre este detetive e seu cliente. Leiam, portanto, abaixo, o texto que recebo de meu amigo e colega Walter Rodrigues:

 

          A DIFERENÇA ENTRE O "TU" E O "VOCÊ"

 

          Segue-se um pequeno exemplo, que ilustra bem esta diferença:

          O diretor geral de um banco estava preocupado com um jovem e brilhante diretor que, depois de ter trabalhado durante algum tempo junto dele sem parar nem para almoçar, começou a ausentar-se ao meio-dia.
Então, esse diretor geral chamou um detetive privado do banco e disse-lhe:

          — Siga o diretor Lopes durante uma semana. Espero que ele não ande fazendo algo sujo.

          O detetive, após cumprir o que lhe havia sido pedido, voltou e informou:

          — O diretor Lopes sai normalmente ao meio-dia, pega seu carro, vai a sua casa almoçar, faz amor com sua mulher, fuma um dos seus excelentes charutos cubanos e regressa ao trabalho.

          Responde o diretor geral:

          — Ah, bom! Antes assim. Não há nada de mal nisso.

          Logo em seguida, o detetive querendo fazer se entender melhor, pergunta:

          — Desculpe, mas posso tratá-lo por tu?

          — Sim, claro — respondeu o diretor surpreso.

          — Bom, então vou repetir — disse o detetive — o diretor Lopes sai normalmente ao meio-dia, pega teu carro, vai a tua casa almoçar, faz amor com tua mulher, fuma um dos teus excelentes charutos cubanos e regressa ao trabalho.

 

          É assim!!!!

          A Língua Portuguesa é muito traiçoeira, e só gaúcho usa corretamente.

  • criado por  Duda Amaral criado por Duda Amaral
  • Postado em 20:52:51

26.01.08

Perdemos o nosso pediatra

          “Obrigado doutor, pelo prazer de lhe conhecer, pela gentileza de ajudar tanto esta cidade e pela maestria como cuidou destes bebês em seus primeiros anos”.

 

          O final de semana passado foi de grande tristeza para a comunidade da fronteira oeste do Rio Grande do Sul. O choro, o soluço, as pessoas cabisbaixas, aqueles abraços fortes, as coroas de flores, o carro dos bombeiros, tantas homenagens e lamentações, tudo justificado pela figura que se despede de seus familiares, colegas, amigos e conterrâneos numa tarde de domingo quente do verão gaúcho. Tudo é justificado pela pessoa que foi e deixou cativo seu lugar no coração de seus admiradores, pelo médico que foi o doutor Carlos Ivoney Moreira Guedes.

          Eu não lembro da primeira vez, criança não costuma guardar muito essas coisas mesmo, mas minha mãe certa vez apresentou-me para o “tio” Ivoney da seguinte forma: “vai lá e dá um abraço no teu pediatra”. Foi quando registrei em minha memória a primeira imagem deste médico ímpar da sociedade santanense. Daí em diante, nunca mais esqueci de sua simpatia, seu sorriso franco, de sua calma e serenidade para conversar com as pessoas.

          Ainda tive o imenso prazer de vir a ser aluno de sua esposa, a “tia” Elenara, no Colégio Estadual, durante minha adolescência, e de tornar-me amigo da família e conviver com todos por alguns momentos como, certa vez, uma viagem a Buenos Aires, onde foram inesquecíveis as brincadeiras dentro do ônibus. Muitas delas puxada pelo próprio médico. Fizemos até um amigo secreto na viagem de retorno, quando tive a oportunidade de presentear a professora Elenara com um livro de poesias de Pablo Neruda.

          Na época, fazia poucas semanas que morrera meu pai, Luiz Carlos Amaral, aos 72 anos de idade, e com seus três filhos homens ao lado em Porto Alegre também em um sábado de manhã. Por isso, imagino que a dor das três filhas mulheres com a perda de uma pessoa tão querida como o pai delas não tem jeito, não há cura, não tem abraço ou palavra de conforto que resolva, sequer o tempo apaga. E é muito bom mesmo que não apague. A única coisa a ser feita, sem dúvida alguma, em um momento desses é chorar e lembrar dos feitos do doutor Ivoney, por isso, é muito bom que sua vida e trajetória não sejam esquecidas.

          Não foram poucas as vezes que escutei a brava história de vida deste pediatra, filho de uma família humilde de comerciantes do Wilson, estudou, formou-se, virou médico e, atrevo-me dizer, alcançou o posto de principal nome da medicina de Sant'Ana do Livramento dos últimos 20 anos. Casou, teve três filhas e empilhou tantos admiradores quanto motivos de orgulho em vida. O seus últimos anos podem, de certa forma, serem vistos como uma despedida em grande estilo para o doutor Ivoney. A filha mais velha casou, a do meio lhe deu o primeiro neto e a caçula formou-se, a exemplo do pai, em medicina. Talvez não contente, ele ainda teve o prazer de ver seu Internacional conquistar o mundo assim como ele conquistou o coração de tanta gente nesta região.

          Por essas virtudes, os seus colegas terão um imenso desafio a partir de agora: a herança do médico Ivoney Guedes não é brincadeira. A sua competência para administrar tornou a Unimed da região da Fronteira em uma das mais sadias e eficientes unidades da cooperativa no país. Não será fácil encontrar pessoas que façam o mesmo que ele conseguiu fazer, com sua amizade e serenidade, a ponto de colocar atrás do carro dos bombeiros que levava seu corpo sob a bandeira da Unimed tantos funcionários da cooperativa cabisbaixos, emocionados e com os olhos marejados de lágrimas sinceras. O que dizer de um líder que consegue, após sua morte, reunir seus colaboradores fiéis em torno de si dessa forma?

          Em outubro, época de eleição para prefeito, será sempre um momento para a comunidade santanense lamentar a perda desta figura e de ficar imaginando: “O quanto ele teria feito por esta cidade se um dia aceitasse sentar nesta cadeira e nos brindar com um pouco de sua sabedoria e competência? O quanto perdemos em nunca ter tido um Carlos Ivoney como prefeito?” Uma coisa é certa, no fundo, lá no fundo, e aonde estiver, ele deve estar pensando que também gostaria de ter passado por tal experiência. Ao tempo que, no fundo, lá no fundo do coração, as crianças de ontem e de hoje, adultas ou não, devem estar agradecendo baixinho: “Obrigado doutor, pelo prazer de lhe conhecer, pela gentileza de ajudar tanto esta cidade e pela maestria como cuidou destes bebês em seus primeiros anos”.

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  • Postado em 20:01:07

13.01.08

A cultura do estrangeiro

          “Um médico de meia tigela de Porto Alegre vale mais que toda a classe médica santanense, um jornalista recém formado de Santa Maria é superior a toda a imprensa de Livramento e um empresário falido de Pelotas é mais talentoso que os sócios da Acil juntos”.

 

 

          Não cometerei o erro de generalizar todos o moradores do município, mas tem muita gente em nossa cidade que vive e valoriza a cultura do estrangeiro. Não estou falando aqui sobre viajar, conhecer outros lugares, tampouco rejeitas livros, filmes, discos e a moda que surgem nos Estados Unidos e na Europa, mas sim sobre a alta valorização de profissionais que chegam de fora em relação aos pratas da casa.

 

          A imprensa e seus profissionais são alguns dos grandes culpados desse vício, mas empresários, políticos e outras categorias também possuem suas respectivas parcelas de culpa pelo exagero de elogios aos outros ao tempo que nossos conterrâneos merecem apenas as críticas negativas.

 

          Qualquer santanense que mora na Europa ou Estados Unidos, mesmo atuando como babá, garçonete, motorista ou, simplesmente, estudando, chega em Sant'Ana do Livramento com status de estrela, vira manchete de jornal, concede entrevista nas rádios e faltaria apenas distribuir autógrafos pelas ruas. É verdade que alguns conterrâneos precisaram mesmo sair da cidade para crescerem na profissão e alcançarem posições de destaque no cenário nacional.

 

          E temos vários exemplos como atletas, executivos, magistrados e educadores. Por outro lado, também lembro de alguns casos de falsos empreendedores chegando de braço dado com vereadores e empresários locais para visitar a Acil, CDL, Sindicato Rural, universidades, prefeito e as rádios como salvador da pátria, o cara que irá abrir uma empresa geradora de renda, emprego e tirar a região da crise.

 

          Porém, desde que tenha do município, é claro, um empurrãozinho isentando de impostos ou avalizando o negócio. Atitudes que estes políticos nunca fizeram por seus conterrâneos. Só para terem idéia, quando uma empresa de sucata arrematou o frigorífico do Armour, vários vereadores e outras lideranças posaram para a foto ao lado dos sucateiros que destruíram com o maior patrimônio industrial da história desta cidade. E a foto comprova exatamente isso.

 

          Há alguns anos, o Orestes Pacheco, então gerente do Sebrae, promoveu uma palestra sobre empreendedorismo no Clube Caixeiral sem informar o palestrante da noite. O clube estava cheio, lotado, todos querendo saber a fórmula mágica vinda do “exterior” para salvar os negócios locais. No momento de abrir a atividade, Pacheco informa que não comunicou antes o nome do palestrante para não esvaziar o encontro e que este seria ele próprio.

 

          Iniciou-se um murmurinho da platéia com a surpresa da revelação, alguns sorriam compreendendo a intenção do empresário, outros fizeram questão de não esconder sua insatisfação, levantando-se das cadeiras e partindo em direção à porta de saída. Ou seja, qualquer João-Ninguém da Porto Alegre, Serra Gaúcha, Santa Maria, etc, teria mais sucesso, entretanto, não poderiam oferecer a mesma oportunidade para um empreendedor local.

 

          Enfim, esse vício acalentado por tantos é mais ou menos assim: um médico de meia tigela de Porto Alegre vale mais que toda a classe médica santanense; um jornalista recém formado de Santa Maria é superior a toda a imprensa de Livramento; um empresário falido de Pelotas é mais talentoso que os sócios da Acil juntos; um escritor semi-analfabeto de Passo Fundo é mais inteligente que a soma dos integrantes da Academia Santanense de Letras; um professor do pré-maternal de Caxias do Sul sabe a fórmula do ensino que nenhum mestre universitário da fronteira conhece; e que um político fraco da capital é mais eficiente e influente do que a coligação de todos as siglas aqui de Livramento.

 

          É exagero? Sim, eu acho, assim como acredito possuirmos profissionais em todos os setores que poderiam ensinar colegas no resto do país. Mas, infelizmente, temos gente da imprensa, da política e do meio empresarial que valorizam quem é de fora ao invés de observarem o talento e a competência que existe em nosso próprio rincão.

  • criado por  Duda Amaral criado por Duda Amaral
  • Postado em 20:53:58

10.01.08

Deixe o carro em casa

Arte: Divulgação/www.mudeomundo.com.br

 

          Ao deixar o carro em casa uma vez por semana você reduz consideravelmente a emissão de gases efeito estufa na atmosfera, colabora com o trânsito, se exercita e torna a cidade mais agradável. Que no Ano Novo você vá para muitos lugares bacanas, a pé, de bicicleta, ônibus ou metrô.

 

  • criado por  Duda Amaral criado por Duda Amaral
  • Postado em 23:48:27