Roendo as Unhas

Opiniões, interpretações e crônicas do jornalista gaúcho Luís Eduardo Amaral (Duda Amaral) sobre os principais assuntos da atualidade.

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Terra Blog

Categoria: Onde o sol nasce quadrado

20.06.08

Exército vítima e militares criminosos

          O Exército Brasileiro entrou em uma grande enrascada com aquela história de dar proteção às obras da favela Providência no centro da cidade do Rio de Janeiro. A instituição não tem culpa pelo fato de alguns de seus integrantes cometerem o crime de entregar nas mãos de traficantes três jovens para a morte, mas não há como impedir que este caso atinja em cheio a reputação dos militares que até hoje parecem estar ainda pagando os pecados pela ditadura no Brasil.

          Se bem que essa enrascada não foi procurada pela instituição por sua própria vontade, mas sim por acordos políticos da base governista com o objetivo de dar uma mãozinha (ou um batalhão inteiro) à candidatura do Senador Marcelo Crivella (PRB) à prefeitura do Rio de Janeiro. Além de ser ex-oficial do Exército, Crivella é do mesmo partido do vice-presidente José Alencar e principal adversário na capital fluminense de Cesar Maia (DEM), severo crítico do Governo Lula.

          Disse-me um oficial graduado do Exército Brasileiro que há muitas outras ações semelhantes a essa no Rio de Janeiro precisando do apoio da instituição, mas o Ministério da Defesa nem cogita liberar tropas para ajudar nesses casos. Como, então, tropas receberam autorização para dar segurança nas obras de Crivella? Ele também questionou o porquê do tal senador escolher o Morro da Providência para receber o programa quando há lugares mais críticos como as favelas da a Baixada Fluminense? E deu a resposta imediata: é que boa parte da Baixada Fluminense fica na cidade de Nova Iguaçú, enquanto Crivella pretende conquista a prefeitura é do Rio de Janeiro.

          O senador é de todo o estado, mas suas pretensões e suas ações parecem visar somente a capital. Quase passa despercebido o fato de que no Morro da Providência concentra-se a maior parte dos evangélicos do Rio, justamente sua base eleitoral. Por tudo isso, o Exército entrou numa grande enrascada combinada por um senador governista com os ministérios da Defesa e das Cidades.

          Fora a obrigação do tenente que comandava a tropa que entregou as vítimas para a morte pagar por seus atos criminosos, fica uma ponta de incompreensão sobre a imprensa, o governo, os moradores do morro e a polícia não tratarem do bárbaro crime cometido por traficantes, como se eles não tivessem participação vital nessa história. Está certo que pior crime é aquele cometido por quem deveria nos dar proteção, mas a Justiça, os moradores e o senador Crivella não vai pedir a expulsão dos traficantes do morro e a prisão deles como pediram do Exército. Este país está virado...  

  • criado por  Duda Amaral criado por Duda Amaral
  • Postado em 21:08:55

19.06.08

Socos e pontapés

 

          Calma, o título não é apologia a agressões, brigas e pancadaria. Muito pelo contrário, vejam só: na madrugada de sexta para o sábado, em frente ao prédio Porta do Sol, na Rua Conde de Porto Alegre, centro de Sant’Ana do Livramento, uma briga entre jovens de família tradicional acabou em tiro. Segundo relato de alguns vizinhos, os disparos atingiram de raspão dois dos envolvidos. Mas não houve nada mais grave do que isso (felizmente), além é claro de escoriações e hematomas causados pelas agressões em um dos rapazes, justo o que parecia estar fugindo da confusão.

 

          Ele teria saído de uma festa e voltado mais cedo para casa a fim de evitar a briga, mas seus oponentes não satisfeitos o seguiram até sua residência para, então, começarem a pancadaria. Com certeza, o assunto deverá ficar por aí (espera-se que entre os brigões também pare por aí) e não haverá nada mais do que comentários nas ruas, pessoas contando a história para outros com mais dramaticidade, exageros e novas versões.

 

          Para o blog, não interessa quem são os envolvidos, quem levou a melhor e a pior e se realmente houve ou não pessoas feridas, tampouco nos interessa as deformações e os exageros que os fatos passarão a ter com a disseminação da briga nas rodas de conversa. O blog interessa-se pelo caso como um exemplo da crítica e da observação a seguir:

 

          É assustador a facilidade como simples brigas de saída de festa ou pequenas discussões terminam hoje em disparos de revólver ou facadas. E como pode haver tantas armas nas mãos de jovens, adolescentes e até adultos irresponsáveis? Antigamente, por mais assustadora que fosse uma briga entre rivais e por mais que trouxesse malefícios para os envolvidos e a sociedade, ela costumava ser recheada de socos, pontapés e, talvez, uma pedrada aqui um pedaço de pau alí. No entanto, era raro alguém puxar uma faca ou um revólver.

 

          Hoje, por qualquer coisinha, os valentes brigões já estão com a faca ou o revólver na mão. E assim, dessa forma, um fato que poderia acontecer num dia e ser esquecido no outro, acaba abrindo feridas para sempre e atingindo não só a vítima e o autor, mas seus amigos, suas famílias, uma comunidade inteira. E tem aquela velha lógica: o revólver foi feito para disparar... 

  • criado por  Duda Amaral criado por Duda Amaral
  • Postado em 22:19:34

04.08.07

A ganância rompe o saco

          É eu ficar pensando de bobeira a qualquer momento do dia que me vem à mente aquela imagem intrigante reprisada ene vezes nos telejornais da Rede Globo e que poderia simbolizar uma pequena parte das personalidades do poder jurídico brasileiro.

          Os agentes da Polícia Federal derrubando uma parede falsa a marretadas no escritório de um apartamento de classe média no bairro da Tijuca, Rio de janeiro, e encontrando cerca de R$ 9 milhões provenientes das operações de uma organização criminosa que envolvia desde bicheiros, dirigentes do carnaval carioca e, pasmem, magistrados. A tal Operação Furacão da PF desarticulou provavelmente um dos maiores esquemas de corrupção sabido no país.

          Lembro dessa imagem – um homem escondendo tanto dinheiro assim dentro de casa – e fico a me perguntar: qual o limite da ganância do ser humano?

          Num país de terceiro mundo como o nosso, onde a maioria da população sobrevive com até um salário mínimo e poucas são as profissões que permitem uma vida confortável, juízes não se contentam com os seus vencimentos mensais de R$ 20 mil, R$ 24 mil e até mais de R$ 30 mil (alguns ganham sim bem mais que isso e passam ameaçando a imprensa de processo quando esta tenta divulgar os salários milionários deles).

          É um absurdo que um procurador da República e três desembargadores ingressem no lado criminoso para incrementar seus ganhos. Putz! Esses caras já ganham bem acima da média do brasileiro e ainda querem mais, mais... Gananciosos! Corruptos!

          Um deles, o magistrado José Eduardo Carreira Alvim, além de desembargador, ex-presidente do Tribunal Regional Federal, é professor universitário e autor de vários livros de Direito. Deve viver melhor que qualquer jogador de futebol da dupla Grenal. O que terão aprendido seus alunos com um professor que faz bico vendendo decisões favoráveis a nove empresas de máquinas de jogos eletrônicos, os tais caça-níqueis. Eu deixo uma sugestão: ponham fogo em suas obras, ele não merece ser lido. A não ser que os estudantes o queiram como modelo a seguir.

          Eu fico muito indignado com essa corrupção escancarada desses magistrados mafiosos. Até me resigno com os crimes causados por questões sociais e passionais, mas é irritante ver os homens de preto com seus salários milionários compactuando com a corrupção. E não são poucos: lembram o Caso Lalau.

          A maior vergonha, porém, é saber que um cidadão quando deixa de pagar pensão para seu cônjuge vai preso, atrás das grades, uma mãe com fome ao roubar comida de um supermercado também vai sem choro para trás das grades. Agora, os magistrados corruptos, assassinos, ladrões, mafiosos, esses se sentirão punidos apenas com o afastamento (ou aposentadoria) de sua função. Vê-los atrás das grades? Eu duvido.

          Nesta semana eles já partem em liberdade para seus confortáveis domicílios a espera da conclusão do inquérito policial. Se indiciados, um colega ainda terá de condená-los. Num milagre da sociedade civilizada, se eles vierem a ser condenados, com certeza serão beneficiados com alguma coisa que ainda não sabemos que exista. Fazer o quê? Quem mandou não estudar e passar no concurso público de algum tribunal brasileiro.

 

          Texto publicado na coluna Roendo as Unhas do jornal Correio do Pampa, no dia 23 de abril de 2007 (Sant'Ana do Livramento). 

  • criado por  Duda Amaral criado por Duda Amaral
  • Postado em 20:15:45