Roendo as Unhas

Opiniões, interpretações e crônicas do jornalista gaúcho Luís Eduardo Amaral (Duda Amaral) sobre os principais assuntos da atualidade.

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Opiniões, interpretações e crônicas do jornalista gaúcho Luís Eduardo Amaral (Duda Amaral) sobre os principais assuntos da atualidade.
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Terra Blog

Categoria: Crônicas

19.06.08

Socos e pontapés

 

          Calma, o título não é apologia a agressões, brigas e pancadaria. Muito pelo contrário, vejam só: na madrugada de sexta para o sábado, em frente ao prédio Porta do Sol, na Rua Conde de Porto Alegre, centro de Sant’Ana do Livramento, uma briga entre jovens de família tradicional acabou em tiro. Segundo relato de alguns vizinhos, os disparos atingiram de raspão dois dos envolvidos. Mas não houve nada mais grave do que isso (felizmente), além é claro de escoriações e hematomas causados pelas agressões em um dos rapazes, justo o que parecia estar fugindo da confusão.

 

          Ele teria saído de uma festa e voltado mais cedo para casa a fim de evitar a briga, mas seus oponentes não satisfeitos o seguiram até sua residência para, então, começarem a pancadaria. Com certeza, o assunto deverá ficar por aí (espera-se que entre os brigões também pare por aí) e não haverá nada mais do que comentários nas ruas, pessoas contando a história para outros com mais dramaticidade, exageros e novas versões.

 

          Para o blog, não interessa quem são os envolvidos, quem levou a melhor e a pior e se realmente houve ou não pessoas feridas, tampouco nos interessa as deformações e os exageros que os fatos passarão a ter com a disseminação da briga nas rodas de conversa. O blog interessa-se pelo caso como um exemplo da crítica e da observação a seguir:

 

          É assustador a facilidade como simples brigas de saída de festa ou pequenas discussões terminam hoje em disparos de revólver ou facadas. E como pode haver tantas armas nas mãos de jovens, adolescentes e até adultos irresponsáveis? Antigamente, por mais assustadora que fosse uma briga entre rivais e por mais que trouxesse malefícios para os envolvidos e a sociedade, ela costumava ser recheada de socos, pontapés e, talvez, uma pedrada aqui um pedaço de pau alí. No entanto, era raro alguém puxar uma faca ou um revólver.

 

          Hoje, por qualquer coisinha, os valentes brigões já estão com a faca ou o revólver na mão. E assim, dessa forma, um fato que poderia acontecer num dia e ser esquecido no outro, acaba abrindo feridas para sempre e atingindo não só a vítima e o autor, mas seus amigos, suas famílias, uma comunidade inteira. E tem aquela velha lógica: o revólver foi feito para disparar... 

  • criado por  Duda Amaral criado por Duda Amaral
  • Postado em 22:19:34

Os novos viúvos de Felipão

 

          O gaúcho Luiz Felipe Scolari tem alguma energia diferenciada no mundo do futebol. Desde que levou o time do Criciúma a inédita e incrível conquista da Copa do Brasil de 1991, ele nunca mais foi demitido por um clube – ele é que pede demissão. Algo para poucos neste esporte. E em cada lugar por onde ele passa conquista admiradores e novos amigos. Quando parte, geralmente após realizar um trabalho longo e eficiente, deixa ótimas lembranças e uma legião de viúvos.

          Foi justamente assim que a torcida gremista ficou após encerrar a Era Felipão no Estádio Olímpico, mais tarde aconteceu o mesmo no Palmeiras e Cruzeiro até levar o Brasil ao pentacampeonato mundial na Ásia, em 2002. Desta vez, são os portugueses que ficaram viúvos. O gaúcho de Passo Fundo ficou por cinco anos e meio à frente da Seleção Portuguesa e foi responsável por alguns dos maiores feitos da história do futebol neste país.

          Mandou embora velhas estrelas da equipe que pareciam não terem mais vontade de suarem suas camisetas, renovou a equipe lusa, fez ressurgir o sentimento de patriotismo que estava adormecido no povo português, conclamou a população do país que enfeitasse suas casas e ruas com as cores da bandeira e cantou o hino com devoção. Dentro de campo, Felipão levou Portugal ao vice-campeonato Europeu em 2004 e a um festejado quarto lugar no Mundial da Alemanha, em 2006, eliminando as seleções tradicionais da Holanda e da Inglaterra e fazendo os brasileiros invejarem a situação de seus colonizadores.

          Na noite (em Basiléia) desta quinta-feira, dois erros infantis da defesa portuguesa fizeram o treinador encerrar sua trajetória de cinco anos e meio na Seleção duas partidas antes de seu desejo, o título. A partir de agora, Luiz Felipe volta a treinar uma equipe azul como são Grêmio e Cruzeiro, o poderoso e milionário Chelsea da inglaterra, e lá em Portugal surgirão os mais novos viúvos de Felipão.

          Alguns, que bem entendem de futebol, já estão se sentindo assim, outros ainda estão desolados com a desclassificação e até o culpando pela derrota, mas também se tornarão viúvos do técnico gaúcho quando verem o trabalho do seu sucessor, e seja este qual for. Enfim, por onde anda, Luiz Felipe Scolari deixa um rastro de sucesso, saudade, histórias e... viúvos!

  • criado por  Duda Amaral criado por Duda Amaral
  • Postado em 20:58:50

18.06.08

Ídolos brasileiros e ídolos sem pátria

 

 

          Não fazem mais ídolos como antigamente. Não fazem mais ídolos como Ayrton Senna, Oscar Schmidt, Gustavo Küerten, Romário, entre outros de uma época distante. Hoje, mais que dinheiro e fama, a soberba de nossos atletas tomou conta de suas vidas. Mais ninguém – ou poucos já que o Felipe Massa e alguns pupilos de Bernardinho estão aí para contrariar – mostra interesse em defender seu país, a sua nação, com garra e com orgulho. Se atualmente é possível formar uma Seleção Brasileira de futebol ou basquete é só porque há dinheiro e patrocinadores envolvidos – e os craques e cabeças de bagre de hoje adoram mais isso do que as cores de sua bandeira e o som de seu hino.

 

 

          Justamente por isso vimos tantos brasileiros vestindo a camisa de outros países como Portugal, Alemanha, México, Turquia, Polônia, Espanha, ente outros. Por isso, vimos tantos “profissionais” surgindo num clube e defendendo outras quinze equipes antes de aposentar as chuteiras. Por isso, vimos tantos milionários jogadores brasileiros da NBA fazendo careta para sua seleção, seu país, como se fossem norte-americanos e integrantes de algum dream time pronto para receber a medalha de ouro em Pequim.

 

 

          Saudade do tempo quando o Senna nos emocionava desfilando nossa bandeira por autódromos do mundo todo após suas vitórias, bandeira que levava escondida em seu cockpit para fugir das proibições do evento. Quanta saudade do amor de Oscar pelo basquete brasileiro a ponto de recusar insistentes convites do milionário certame da NBA. Só mesmo um sujeito assim para dizer “não” à fortuna norte-americana em troca de sua devoção pela Seleção.

 

 

          Seleção com maiúscula, bem diferente de como devemos listar essa turma do atual basquete: nenê, varejão, leandrinho, valtinho, guilherme, paulão, além da imatura iziane. Quem é essa gente mesmo? Já existem imagens históricas nos arquivos da Rede Globo para nossos filhos e netos lembrarem de seus feitos? Quais foram mesmo os seus feitos? Apenas ganhar dinheiro, lotar os bolsos de Dólares e Euros, pois que aproveitem e façam bom uso do seu dinheiro porque de patriotismo, orgulho e história, eles não entendem nada.

 

          Também não é possível aceitar a atitude do religioso e bom garoto Kaká de considerar seu clube mais importante que sua Seleção. Quem seria Kaká se um dia não vestisse a Amarelinha? Craques que nunca defenderam o Brasil têm milhões, alguns são famosos, a maioria desconhecida. Todavia, nenhum fez carreira excepcional na Europa. Vejam a diferença entre Neto, Marcelinho Carioca, Djalminha de colegas como Falcão, Zico, Romário, Ronaldo e Rivaldo.

 

          Ou seja, por mais talentoso que seja o Kaká, nunca chegaria à elite do futebol mundial se antes não vestisse a pesada camisa do Brasil. E, agora, ele dá as costas deixando entender que o problema é o treinador? Ingratidão é uma ferida difícil de cicatrizar. Nunca um clube será maior que uma Seleção, ainda mais quando se trata da tradicional e pentacampeã Seleção Brasileira.

 

          A maior parte desses atletas argumenta que gostariam muito de representarem o nosso país, mas que a lesão pode agravar e comprometer suas futuras performances. O Romário é um exemplo da bobagem desses hipócritas “estrangeiros”. Quando Romário sofreu uma lesão grave meses antes da Copa do Mundo de 1998, ele garantiu para si e para os torcedores que estaria na Copa da França.

 

          Contratou uma equipe particular com fisioterapeuta, submeteu-se a exaustivos treinamentos (coisa rara para o Baixinho) e fez questão de mostrar na véspera do torneio que estava inteiro, mesmo estando descartado pela comissão técnica. Tudo por sua vontade de vestir a número 11 e fazer os seus gols. O Kaká deveria mostrar essa inteligência rara que lhe atribuem para buscar no badboy o exemplo de caráter e patriotismo de um atleta.

 

          Infelizmente o dinheiro e o tal profissionalismo tomaram conta da cabeça desses jovens atletas brasileiros, mas talvez eles esqueçam que após encerrarem suas carreiras e o dinheiro for apenas um conforto material, todos notarão a falta de algo fundamental em suas vidas: o reconhecimento para a história... e a história é feita de imagens e atos de bravura por seu povo, pelos seus iguais, por sua nação, seu país.

 

          Então, não haverá mais volta. E a Iziane terá de comprar uma poltrona para assistir as Olimpíadas, os guris da NBA deverão tentar a cidadania norte-americana (aqui não farão falta) e o Kaká pode ir rezar e pedir a Deus e Santo Ambrósio de Milão que o recupere o quanto antes, mas é bom ele lembrar de orar em italiano porque seu Deus e seus santos não são brasileiros...

  • criado por  Duda Amaral criado por Duda Amaral
  • Postado em 01:36:17

06.12.07

Três capitães e dois brigadianos

categorias: Crônicas

          Devo ser a última viva alma neste país que ainda não viu o badalado filme brasileiro Tropa de Elite. Eu e o finado Pé de Bicho lá do Upamaroty, que por sinal além de ser arisco a essas coisas modernas como cinema, morreu antes mesmo da gravação do filme. Fora nós dois, tenho certeza que toda a torcida corinthiana, rubro-negra e da dupla Grenal, além dos seus secadores, já compraram um DVD pirata para assitir o sucesso tupiniquim.

          E essas pessoas todas, que gostam de um filmezinho e enchem a barriga para falar de honestidade e civilidade, são tudo projeto de um certo Capitão Jack Sparrow, aquele pirata do caribe (em nosso caso do Pampa ou dos Trópicos) interpretado pelo norte-americano Johnny Depp com trejeito de músico bêbado do Rolling Stones na megaprodução da Walt Disney. Ou seja, falam uma coisa e fazem outra, como comprar produtos piratas financiando o crime e mandando às favas leis, direitos, impostos, empregos e nossas cidades. E todo mundo acha normal, legal, bonito.

          O Presidente Lula nem ficou constrangido de revelar que assistiu um filme em seu jatinho pirata. Não, não é o jatinho, nem o presidente que é pirata, mas sim o DVD que ele pediu para comprarem. Aqui na fronteira, o dono de uma loja de CDs e DVDs é também dono de uma estação de rádio onde os seis elementos que integram um programa da emissora comentavam rindo e felizes que conhecem, são amigos e clientes dos vendedores ambulantes de filmes piratas na Praça dos Cachorros. E nesta semana vi uma foto que vai causar ainda muita polêmica (não me deixaram publicar aqui por medo evidentemente): uma viatura da Brigada Militar estacionada na frente das bancas de camelô brasileiras e dois policiais fardados escolhendo num bolo de DVDs piratas os títulos preferidos. Onde chegamos? Ao invés de nos protegerem e apreenderem o produto ilegal, eles compram e levam para casa. Onde vamos parar? Quem vai nos defender? O presidente e os dois policiais não parecem dispostos a acabar com os jacks sparrows da vida, com os piratas de cada esquina, e assim gira o mundo. Até imagino qual filme esses brigadianos escolheram para ver. Por isso tenho certeza, só eu e o Pé de Bicho ainda não assistimos as aventuras do Capitão Nascimento. Se bem que o Pé de Bicho era fã mesmo das história do Capitão Rodrigo Cambará...

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  • Postado em 16:33:53

24.11.07

Um banquinho, um violão...

categorias: Crônicas

          “O Dadi com sua vocação para cantor da noite reforçava o coro da platéia, esticando o braço para o alto, abrindo a palma da mão e erguendo a cabeça como um legítimo tenor”.

          Já havia constatado e fiquei tão faceiro quanto na época de adolescente com carteirinha verde do Bar & Noche, mas foi somente nesta madrugada de sexta para sábado que surgiu o estalo em minha cabeça de escrever do assunto. Afinal de contas, Livramento também respira coisas boas. Como já sabia de antemão o evento da noite (propaganda é fundamental), fui com minha mulher e os amigos Simone, Clarissa e Rafael até o barzinho do Ricardo. O diminutivo aqui nada tem a ver com depreciação do lugar, bem pelo contrário. O La Tasca está mostrando referências de um grande estabelecimento para o lazer noturno em nossa cidade.

          Mas, voltando ao assunto, chegamos pouco antes da meia-noite na casa localizada na Faixa, como o povo batizou a avenida João Goulart. Algumas mesas ainda estavam vazias, e a cerveja bem gelada. No primeiro momento, fomos de Bohemia. Não demorou dez minutos e a dupla de músicos Cláudio e Júlio, ex-integrantes da ótima banda Activos del Rock, passou a tirar os primeiros acordes de seus violões. Eles começaram a apresentação com um sucesso do Lobão (Corações Psicodélicos) em ritmo acústico e seguiram revezando hits brasileiros dos anos 80 e 90 com mexicanos do Maná e argentinos do Charly García, Ananitos Verdes e Fito Paez. Teve até Leon Gieco.

          Nessa altura, o bar estava cheio, e nosso grupo já havia passado para a Skol. “Ela é menos amarga” alegavam as gurias. Na mesa ao lado do palco, o Cidade pegava o violão reserva do Júlio para mostrar (imagino) algumas notas musicais para uma amiga. Em outra, o Dadi com sua vocação para cantor da noite reforçava o coro da platéia, esticando o braço para o alto, abrindo a palma da mão e erguendo a cabeça como um legítimo tenor. E o vereador Batista, escorado no balcão, aplaudia os cantores entre uma conversa e outra sobre política santanense, mas preferindo, especulo, uma noite de pagode. E todos felizes, aproveitando o máximo a existência de um local onde os músicos da fronteira mostram seus talentos, enquanto o público bebe, petisca e conversa com uma música de fundo.

          Fazia tempo que Livramento não trazia a tona novamente o seu lado musical noturno. Mas este ano foi excelente com música ao vivo nos palcos do Taberna e do La Tasca. Foi um 2007 para lembrar a boa época da Faixa com o Dom Quixote de um lado da calçada, junto ao Bar & Noche, e o Bar Parceria do outro. Ainda teve, nesse meio tempo, o Bar Face a Face, também na João Goulart. É uma vocação da avenida que ninguém mais tira, nem os anos, nem os carros e motos barulhentas, nem o conformismo das pessoas: a virtude de ter sempre uma noite alegre com um banquinho e um violão.

  • criado por  Duda Amaral criado por Duda Amaral
  • Postado em 20:08:43